O Joaquim Nunes, com loja ali à barreira, servia, pela festa a Santo António, a tradicional cabra no forno, como por aqui a sabemos cozinhar. Cheirosa, tostada, uma carne macia que se desprende dos ossos, logo que tirada da assadeira ainda a fumegar, libertando misteriosos aromas de cravinho e pimenta, caldeados na maceração do vinho branco do lavrador. Forasteiros e romeiros, abancavam-se nas mesas do Nunes, e comiam com fome antiga, aquela carne rosada, cozinhada durante uma noite inteira, no calor do forno que a lenha aquecera, acompanhada de batatinhas assadas e arroz feito no molho, com uma gula infinita que deixava os pratos limpos e escorridos, de tanto esfregar o pão.
Uns amigos, aqui vizinhos de Salreu, que anualmente vinham à festa, comiam a cabra do Nunes e, no meio da confusão que se gerava pela muita gente, saíam sorrateiramente, sem pagar, e gabavam-se depois, de como tinham ferrado, mais uma vez, o cão ao Nunes.
Nesse ano da graça de 1924, o Nunes, farto da burla e da velhacaria com que o povo lhe atirava; então, ferraram-te o cão outra vez? - jurara vingança. Esmerou-se na assadura que serviria aos de Salreu que, como hábito, vieram, comeram e beberam. Desta vez, pagaram, que o Nunes, sempre alerta, não deixou que os mariolas se aproveitassem novamente da confusão. Prodigializaram os comedores, nos elogios à arte da confecção da refeição, um triste e abandonado cão, que o Nunes abatera, assara, e lhes servira.
Tive que ler e reler com atenção para entender o significado do texto, mas depois compreendi (a expressão “ferrar o cão” não é usada no Brasil).
Nunes com certeza deu uma lição neles.
“Ferrar o Cão”
Deste Brasil de Deus, além do Paraná, minha terra natal, e do Rio Grande do Sul que me viu crescer desde criança, para além dos limites desta Pátria amada, não vislumbro nos horizontes nenhuma cidade que fale tão fortemente ao meu coração quanto Lisboa…
A razão deste sentimento , com certeza, são as lições que a vida me mostrou, no curto tempo que lá passei. Entre tantas e tão variadas, existe uma que via sempre, todos os dias ao chegar no trabalho vindo da Rua dos Douradores onde morava, até a Rua Pereira Henriques nº38, no Poço do Bispo…
Era um singelo azulejo, fixado à uma das colunas que sustinham o telhado do prédio que abrigava a marcenaria, onde trabalhávamos. Sua singeleza porém, não desmentia a imensa sabedoria da expressão popular nêle inscrita:
” Se aquí vens como amigo, entra, a casa é tua. Mas se vens ferrar o cão é melhor ficar na rua”.
Sei que “ferrar o cão” significa enganar, levar ao engôdo, mas sempre que lia na frase do azulejo a entendia como sinônima de “engatilhar” uma arma, com efeitos presumivelmente negativos…
É, enfim, a força abrangente da expressão popular a justificar um sem número de entendimentos não necessáriamente corretos, nem peremptóriamente errados.
Desta forma quero deixar minhas cordiais saudações !!
André Graeff Riczaneck OAB/RS 52394