Tenho a sorte de ter um pequeno quintal onde me entretenho mais do que trabalho já que nada do que lá cultivo e faço representa sacrifício mas se torna antes numa fonte prazeres. Seja plantar beterrabas ou couves com que crio o porquinho, seja cuidar das minhas abelhas, cortar lenha, produzir macieiras ou cuidar das roseiras… Vergo a mola, como se diz, mas lavo o espírito enquanto peno. E, ao contrário do que pensam alguns, não sinto que nesses afazeres desperdice o pouco tempo que tenho, que roube à leitura ou à escrita. Há um tempo para apanhar pedras e outro para as atirar, como consta no Eclesiastes, como já se sabe.
Quando ando mergulhado nessas minhas descuidadas lides, gosto de vestir roupas velhas e de calçar sapatos gastos. Posso assim sujar-me, posso conviver com os meus cães, atender ao que é simples e natural sem que me ensombrem outros cuidados que, de ordinário, tornam as pessoas infelizes.
Sérgio Paulo Silva in Palavras de trazer por casa.
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O Sérgio, eventual colaborador deste blog, por razões de excesso de trabalho e míngua de tempo, talvez nos prende com um ou outro escrito, de quando em vez. Tenhamos fé. Concedeu que por aqui deixemos bocados da sua prosa, de que faz parte o texto acima, integrado no seu mais recente trabalho, Palavras de trazer por casa, uma edição do autor que reúne textos vários, dispersos no tempo, e colaborações que prestou em jornais e outros.
A prosa do Sérgio é assim, clara, brilhante, real, sem os artefactos de literatura pseudo intelectual, fala-nos da realidade das vidas vividas, dos casos mesquinhos da aldeia que não cabem nas memórias das mundanices e por isso, ignorada como o são os grãos de areia que sustentam os grandes edifícios.
Ler o Sérgio, é reviver os tempos de sol e pés descalços chapinhando as águas dos nossos ribeiros, a emoção das jornadas a pé no caminho da festa à Senhora do Socorro, a fruta colhida na beira do caminho, o vinho bebido em festa, o pão suado do esforço da labuta. Não se recomenda…, é obrigatório.
Vim até aqui ler o Sérgio e gostei. Até parece que desci ao quintal da minha mãe…
Cpts