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matança

Na cara não homem, na cara não que é um vergonha! Já não gritava, A voz saía-lhe trémula, dorida e rouca das muitas tareias que sofrera desde que saíra de casa de seus pais, enfeitiçada por aquela figura pequena e esguia na qual brilhavam dois olhos verdes que foram a perdição da sua vida. Nada e criada na rudeza de casa de lavradores, nunca nada lhe faltara. Sempre uma saia nova pela festa, uns sapatos pelos anos, jamais seu pai lhe tocara com um dedo, ainda que por vezes bem o tivesse merecido.

O calvário começou logo a seguir ao casamento. O sonho de uma vida de felicidade ao lado do homem que escolhera para companheiro, começou a desmoronar-se com a primeira bofetada desferida entre os efeitos de uns copos a mais. Perdera-lhe o respeito, e a vergonha da sua infelicidade, impediu-a de voltar para casa de seus pais.

Mais de quarenta anos de tareias e maus tratos. Tinha vergonha de se apresentar às suas amigas, a ter de inventar quedas, coices das vacas, batidas em portas e armários, para justificar as nódoas negras que lhe manchavam a carne escanzelada. Fingiam acreditar, sabendo que o desgraçado lhe batia com o que tivesse à mão, sem motivo ou argumento.

Desta vez tinha sido uma tareia violenta, espancada pelas carnes até aos ossos, mal se conseguia manter de pé. Na sua idade, a juntar às dores que a velhice consigo trás, a vergonha de se ter de arrastar nas ruas, fazia-lhe cair negras lágrimas que lhe não amainando as dores, aliviavam a alma de maus presságios. À porta de casa, a Julinha amparada nas duas muletas que a ajudavam a ter-se de pé, conversava com a do Pintor. Das doenças, da vida, do que fazer para o almoço.

Amigas desde meninas. Sem uma palavra, choraram a infelicidade daquela a quem o destino marcara o mais triste fado.

– O desgraçado bateu-te outra vez, mulher? Tens de fazer alguma coisa!

– Que hei-de eu fazer? Tenho medo que me mate. Está sempre a ameaçar-me, que me há-de matar!

– Mata-o tu, primeiro mulher! Mata-o! Mata esse desgraçado que eu ajudo!

Lavada em lágrimas, e levantando ameaçadoramente uma muleta, a Julinha assentou; Isso, mata o desgraçado! Mata-o que eu seguro!

Fadário

Que lhe havia de acabar com o faidário! A raiva surda que as magras colheitas engordava, ia crescendo nos dias mal comidos e nas duras canseiras que a má terra de lavoura exigia à força dos braços. Terra que lhe levava a vida para dele se alimentar e o Estado sempre a apoquentá-lo com a décima. Vida magra e grande labuta por uns poucos alqueires de milho e vinte almudes de fraco vinho, dos quais todos os anos, havia de repartir com o Estado por via da décima. Mas não perdia pela demora, porque lhe havia de lhe acabar com o faidário! Todos os da aldeia o sabiam, e já faltava pouco.

Quando a linha do norte foi concluída, viajou vezes sem conta entre a aldeia e Lisboa. Ia e vinha, no comboio, sem outro fim ou destino. Vendia as terras para pagar os bilhetes. E foi vendendo. Terras, pinhais, juncais, para ir e vir de comboio, assim gozando o que era seu e não do Estado. Quando vendeu a última parcela, a raiva desvaneceu-se como o fumo da máquina se evaporava no ar. Acabara-se o faidário! Nunca mais pagaria a décima. Viveu os anos restantes da caridade da aldeia.

Barbeiro d’aldeia

Porta aberta, a freguesia lá ia passando a desfazer as barbas ou aparar cabelos. Antes da missa das dez, era obrigatória a rapagem dos queixos empedernidos da escassa lavagem e do pó entranhado na produção filiforme de uma semana de jornadas de sol-a-sol. A esta hora matinal, a conversa era pouca e o trabalho rápido. Falava-se do tempo, do calendário agrícola, do coice que o João tinha levado da égua e o mandara para o hospital com três costelas partidas, enquanto a navalha ia desfazendo o matagal desenvolvido nas fronhas dos fregueses. Cara limpa, uma mão concha de aguardente provia à desinfecção e perfume das peles e, toca a andar para a santa missinha.

Os da tarde, chegavam com outros vagares. Vinham para grandes conversas. Traziam para fora o banco corrido e sentavam-se costas contra a parede gozando o sol quente e saboreando infindáveis conversas. O Justino, para não ficar sozinho, trazia igualmente o mocho e, na modorra da tarde, o pequeno largo albergava a barbearia a céu aberto.

Entre barbas e cabelos, falava-se de tudo e todos. Ali se punha em dia a conversa, se contavam os casos mais assombrosos, as estórias de lobisomens vividas e juradas – que o céu me caia em cima se não é verdade – as infidelidades mais insuspeitas, vislumbradas na figura negra a escapulir-se pela porta entreaberta, dizia-se mal de vizinhos, do regedor, do governo e da choldra do país. Sem pressas, os fregueses ofereciam a sua vez a qualquer outro mais azafamado e, se ninguém aceitava, era com evidente pesar que se transferiam do banco corrido para o mocho, voltando ao assento primeiro logo que se viam tratados.

Finda a tarde, o Justino fechava a loja. Varria do chão cabelos da dureza das crinas de cavalo, limpava pentes, tesouras e navalhas, dobrava o Jornal de Estarreja e, finalmente, como todos os barbeiros, desfazia a sua própria barba. Ensaboado e de navalha em riste, olhava-se no espelho. Na quietude e silêncio do fim-de-dia tornavam-se audíveis os ecos das misérias que por ali desfilaram nas conversas tidas. Sozinho e sem mais de quem dizer mal, encarando-se olhos nos olhos, o Justino encosta a navalha à pele e diz para o espelho; e tu, Justino Pintor, pareces um anjinho mas também és um bom filho da puta!

Memórias de uma bezerra

Veio de mansinho, ali para o Côbo, a dessedentar uns pequenos carapauzinhos de escabeche, a que o louro e o alho fritos, davam um leve toque de calor picante, assim como que a lembrar outros trópicos, fritinhos no ponto em que se comem do rabo à cabeça e de uma só vez mas, foi com a picanha que a bicha começou a tomar forma. Medrou nas vermelhas fatias da carne tostada, finamente cortadas, que deixava escorrer um gostoso pingo de gordura para cima do pão caseiro, de farinhas misturadas por mãos e saberes ancestrais, cozido substantivamente, em forno a lenha. Deu-se-lhe a devida continuação com uns pitos, grelhados no calor do brasido, temperados num molho de azeite, alho, malagueta, louro, vinho branco e verde salsa. Sob a frescura dos amieiros, nados e criados nas bordas das valas que comportam as águas que a Ria, generosamente alaga, a dita foi crescendo. Umas divinais bifanas, cortadas de uma carne rosada, envolvida na gordura consistente que só nos porcos caseiros, criados a batata, couves e cabaça, se pode encontrar, avaramente temperadas com umas pedras de sal e comidas de goluseima, vieram ajudar à criação. A tarde fugia para poente e a bicha ganhara corpo, espalhando a sua mansidão na languidez dos vapores etéreos. Havia ainda que dar destino a um soberbo tacho de louros e bem cheirosos rojões, frigidos horas a fio na sua própria gordura e que apeteciam só de olhar. Por esta altura, a bezerra já andava à solta, galgando valas, terras de poisio ou aninhando-se nas sombras frescas de salgueiros e amieiros. A modos de a prender, botou-se-lhe um caldo verde, mas o certo é que este entornou. Foi a aletria, e o seguido arroz-doce que estragaram tudo. Ainda que bem se tentou ensopar o animal num soberbo e esmerado pão-de-ló que a Lúcia faz com receita antiga, mas era tarde demais. Estava apanhada. O café e a aguardente que mão acautelada levou, para caso de indisposição ou acidente, arrumou o assunto, atirando o caixão à cova.

Voltaram de mansinho, já os galos se agitavam nos poleiros, guiados pela luz do Senhor que a lua esparramava a esmo e os espelhos de água reflectiam de modos a fazer dia. Cuidados redobrados, não fossem os três cair à água, desavindos quanto ao caminho, iam tombando para a direita, ora para a esquerda já que o do meio, se não tinha em pé. Este bem que avisou de que, a não chegarem a um entendimento, iriam os três ao chão. E foram! Pela madrugada, desentenderam-se novamente, agora, quanto ao sítio do buraco da fechadura. O da direita que era mais acima, o da esquerda, mais abaixo e o outro, não sabia. Acudiu a mulher, desperta do santo sono pelo desacato ali mesmo à sua porta.

Percebeu, já o sol ia a pino, que tinha deixado fugir a bezerra.

O Carvalho

O seu pequeno tamanho, era a sua maior amargura. Meão de corpo, o Tavares ganhava a vida a negociar gado. A pé, calcorreava o mundo por fracos caminhos, conduzindo os gados de feira em feira, de festa em festa. Para os três de Eixo, os nove em Pardilhó, a dez na Fontinha a quinze e trinta no Santo Amaro, a dezassete em S. João de Loure, a dezanove em Albergaria, a vinte e quatro nas Frias, a vinte seis em Angeja. Havia ainda as festas a Nossa Senhora da Alegria, o Santo António em Serém, o São Gonçalo no Sobreiro, Santo Amaro de Sernada enfim, um nunca mais acabar de palmilhar por entre montes e vales, caminhos de Deus que, de tantas vezes repetidos, o gado mais velho já os sabia.

Viandante de destino, escarniava o povo a propósito da sua tacanhez, que o Tavares se gastara a andar.

– Óh andadeiro, qualquer dia consomes-te de vez e desapareces!

Filhos duma cabra, sem respeito nem educação, aferroavam-lhe do cimo da sua altura, o pau onde mais lhe doía, precisamente no seu maior desgosto. A alma turvava-se-lhe e sentia-se minguar ainda mais, como se a terra se abrisse e o engolisse logo ali. Afogava o desconsolo nuns copos mal bebidos, e deitava p’ra cama.

Morava ali à Teixeira. Farto assento de lavradores, ostentava à porta um imponente carvalho que na sua grossa dimensão, também ele, achincalhava a pequenez do seu proprietário.

Noite adentro, raso aos muros, lá ia levando a brezundo ao lar. Mercê dos maus vinhos misturados a granel em armazéns manhosos, a alimária perdia estribeiras e lucidez, zigzagueando erráticamente as estreitas ruas aos repelões, tropeçava nos buracos que o tempo pacientemente cavava nos chãos de saibro propositadamente para o arreliar por via dos repetidos trambolhões  que neles dava. Enfim, como é sabido, apanhá-las é fácil, levá-las a casa é o diabo.

Chegado finalmente à porta, vingava o despeito que o roía. Era ali que se pagava com juros, dos remoques ao seu acanhamento.

Equilibrado ao velho carvalho, enchia os pulmões e gritava para a aldeia que o amofinava:

– O Tavares é pequeno mas tem um grande carvalho à porta!

Infâncias d’aldeia

Nado e criado na ruralidade da aldeia, o Júlio foi crescendo entre lavras, alfaias, madrugadas no monte à caruma e ao mato, galinhas, porcos, vacas e tudo o mais que a mãe natureza fez criar. Próprio da infância, apenas algumas brincadeiras, de quando em quando, com a miudagem vizinha. Levantava-se à voz da mãe, por vezes ainda noite, e cumpria as tarefas que lhe estavam destinadas.

Pelos seis anos, estava um homem feito e o pai levou-o à escola. Assim num momento, acabara-lhe com a liberdade das corridas atrás dos garnisés, da subida às árvores, das brincadeiras com o Nero, um rafeiro por quem se tomara de amizades. A escola doía-lhe como as penas aos condenados e, talvez por isso, os primeiros dias foram mais difíceis, pouco habituado a longas quietudes e menos destro com lápis e cadernos. Bem mais à vontade estava com os caminhos para o campo, ou a descoberta dos ninhos que os manhosos melros insistiam em esconder nos silvados mais densos.

Os algarismos e letras, que a senhora professora queria muito redondinhas, desenhadas muito certinhas entre os dois riscos do caderno de linhas, uma tarefa gigantesca que o fazia transpirar do esforço a que o seu pouco jeito para a escrita, obrigava. E a malvada, sem piedade, insistia sempre nas letrinhas redondas, nos algarismos muito bem feitinhos; ele, esforçado para lhe fazer a vontade, inquietava-se na cadeira e contorcia-se na carteira, tentando obrigar aquela mão direita que mais parecia esquerda, a seguir as linhas mas, o lápis fugia-lhe e os traços saíam bicudos, uns acima outros abaixo, levando-o ao desespero.

E lá vinha ela outra vez fiscalizar o trabalho. Inquietou-se e uns pingos de suor rolaram espinha abaixo. Torcido em cima da carteira, ansioso no aperfeiçoamento da caligrafia, o Júlio, fora de si, exclamou alto e bom-som: Caralho, qu’isto é difícil!

Fez-se um breve silêncio na sala, antes de cair o Carmo e a Trindade. A tez da professora avermelhou-se e esta avançou ameaçadoramente para o Júlio. E disse-lhe das boas; que era um malcriado, que tais coisas se não diziam, que nunca tinha ouvido coisa assim, que faria queixa a seu pai, que seria castigado, que lhe não admitia que dissesse asneiras. Um ralhete assim, como nunca, ele tinha levado.

Atónito, olhos esbugalhados, o Júlio não atinava a razão de tanta zanga. Olhos fixos na professora, crescia a vergonha no riso escarninho dos colegas. Mas que fizera, que dissera ele para provocar tal desacato? Por entre o burburinho, tentou explicar-se; encheu o peito de coragem, encarou a mestra e disse-lhe: A senhora professora que me desculpe mas, também não era preciso tanto; foda-se que eu nem sabia que caralho era asneira!

O choro das videiras

Às vezes, no correr dos anos, rompe do chão do meu quintal um rebento de videira em sítios onde as cepas foram arrancadas há dezenas de anos e que entretanto foram criando outras coisas. E esses rebentos vêm dizer-me o que a minha memória sabe, que na minha infância em torno de todo o quintal existiam videiras e uma grande latada que cobria toda a área de galinheiros e currais de lenha e porcos.

A escassa vindima não chegava a dar lagarada que se visse. Mas fez-se durante muitos anos. E era assim em todas as casas por aí. Os poços de rega tinham, quase sem excepção, latadas de videiras americanas que protegiam com a sua sombra os animais que sob o calor os volteavam arrancando a água essencial ao medrar dos milhos. As parcelas de terrenos agrícolas que ao longo dos anos se foram encurtando por mor das partilhas entre irmãos, de famílias ainda há bem pouco numerosas, eram, frequentemente, demarcadas por videiras. E esse culto ia por aí, por adentro dessas terras marinhoas até a um palmo do mar: na Torreira ainda se vêm restos de latadas …

Salvo uma por outra cepa, não se cultivavam as uvas de mesa. Fazia-se vinho fraco que não prestava. Nem o de Canelas, que sobressaía, valia o chão que ocupava, nenhum compensava a sombra, os trabalhos da folha, do sulfato, da poda, da vindima, do tanoeiro …

Grão a grão enche a galinha o papo. O ditado é uma luva para desvairadas mãos. Para o que era entre nós o cultivo da vinha também. Bebiam as gentes do que então se produzia não se gastando um tostão (um cêntimo) nos vinhos de marca, de região demarcada, de adegas cooperativas e por aí fora, como hoje gastam, muitas vezes com um despropositado valor de rótulo, já que quaisquer, medianamente sensato, se apercebe do quanto os valores por litro estão injustificadamente inflacionados. Não gastavam e davam um valor acrescentado nas aguardentes que faziam, infelizmente desaproveitadas. Esfolava-se uma perna? Aguardente para cima. Doía um dente? Boxexava-se com aguardente. Perdia-se a mais valia em coisas comesinhas, em mata bichos de quanta tasca e venda se encontrava no cotovelo de quanta rua havia. De ordinário não se envelhecia a aguardente. E, no entanto, as aguardentes que se obtinham destes vinhedos locais (ocasionais) eram de superior qualidade, ao contrário do vinho.

Os velhos hão-de recordar-se do cinema armado que foi a ordem de arranque e destruição das videiras americanas. Foi então insuficiente a polícia. Repicaram os sinos e teve que vir a tropa. E para quê tanto ânimo,

tanta cena triste? O tempo no seu correr se encarregou de desfazer latadas, apodrecer os cascos, encerrar os alambiques.

Dos que existiam na minha freguesia (Salreu) resta apenas um, do Sr. Mário Corte-Real, numa laboração ocasional valendo-se do sacrifício do Sr. Armindo e destilando por teimosias: a teimosia da amizade, a teimosia de uma prestação de serviço a uma agricultura que já não existe e a teimosia do amor pelo que os anos foram entranhando nas nossas mãos …

Fechou há muito o alambique do Ernesto Ildefonso; o do Dr. Pinaz pouco lhe sobreviveu. E tempos houve em que laboravam os três dia e noite. Para se ter uma ideia do que os alimentava, registe-se que o próprio Mário Corte-Real produzia, por ano, cerca de 600 almudes de vinho e agora tem em casa quatro videiras …

Não se mudaram as vontades e tenho a impressão de que se continua a dar de comer a um milhão de portugueses apesar dos uísques e de outras modas similares. Antes creio que se deslocaram algumas geografias e se fazem contas de outra maneira nos tempos que se mudaram.

Da minha geografia sentimental me lembrou a videirinha espontânea já que se deixaram de ouvir os silvos dos alambiques a pedir mais bagaço. Temo agora que o último se volatize, como os aromas da aguardente, da pobre memória das gentes da minha aldeia.

N. de A -Assim aconteceu. Fechou esse último alambique e o velho Mário Corte-Real faleceu já no ano

Sérgio Paulo Silva in Palavras de trazer por casa.

Na década de quarenta do século passado, proibiu-se o pastoreio dos gados nos montes, por via dos estragos que faziam nas carquejas e nos jovens pinheiros. Pela mesma altura, José Crespo e Manuel Sá, foram capturar ao rio Cabrão, Douradinhas que vieram lançar, no rio Amial que, no passado, fora viveiro de grandes e bonitos peixes.

Estas memórias, foram-nos legadas por António Domingues de Sá, e fazem-nos reflectir sobre a influência que o Homem exerce sobre o meio ambiente, tão mal tratado, que apenas o milagre da natureza, possibilita a teimosa sobrevivência das espécies, à fúria destruidora que parece animar os humanos.

Por estas bandas, muitas espécies se extinguiram e muitas outras estão em vias de tal. A poluição, os químicos agro-pecuários, insecticidas, uma certa casta de caçadores e outros factores, vão-nos privando da companhia de aves, peixes e, de muitos dos animais selvagens que por aqui habitaram.

Em boa verdade, o tempo tudo muda. Em cerca de sessenta anos, as carquejas e os pinheiros que cada proprietário defendia com unhas e dentes, deixaram de ter qualquer importância ou utilidade. Os matos cresceram de tal forma que inviabilizam até, a localização dos marcos que demarcam cada prédio. Os rios de Cabrão, e do Amial, são hoje regatos que apenas tem água nos meses chuvosos.

As andorinhas que na minha infância pejavam os fios eléctricos desta aldeia, são hoje poucas, muito poucas, diria mesmo que começam a rarear. Talvez que a falta de insectos, vítimas dos insecticidas, dos quais se alimentam, seja o motivo que as leva a outras paragens. Há dois anos, um casal fez o ninho no beiral da minha casa. Creio que procriaram por duas vezes, nesse ano. Voltaram, este ano ao ninho, que tive o cuidado de manter, e por cá estão. Não me apercebi de que tenham procriado mas, talvez sim.

Os rouxinóis que por aqui havia, há muito que se extinguiram. Pintassilgos, Cartaxinhos e Piscos raramente se vêm, vítimas dos motivos já referidos. O Homem vai ficando só. Olhamos à nossa volta, e apenas vemos o lixo que o progresso produz, numa sociedade sem valores, desumanizada, egoísta e perversa.

Aqui pela minha aldeia, um grupo de caçadores, disfarçados de ambientalistas, constituiu-se em associação e, de conluio com outros de Fermelã, pretendem adquirir a exclusividade da matança, nos terrenos destas freguesias. Não contestando o direito de caçar previsto na lei, lamento que efectivamente, dado a raridade crescente das espécies, em lugar de nos preocupar-mos com a preservação e reprodução das ameaçadas de extinção – e por aqui são praticamente todas – recorramos a esquemas que nos permitam sermos nós a matar, no caso os referidos, os sobreviventes desta guerra que os homens declararam aos animais.

É triste e lamentável que a evolução, ainda não tenha produzido nos humanos, a inteligência necessária para que estes saibam respeitar, o planeta e, os que com eles convivem.

Parafraseando Sérgio Godinho, “flor de Junho dá fruto, homem sozinho é que não”.

Tenho a sorte de ter um pequeno quintal onde me entretenho mais do que trabalho já que nada do que lá cultivo e faço representa sacrifício mas se torna antes numa fonte prazeres. Seja plantar beterrabas ou couves com que crio o porquinho, seja cuidar das minhas abelhas, cortar lenha, produzir macieiras ou cuidar das roseiras… Vergo a mola, como se diz, mas lavo o espírito enquanto peno. E, ao contrário do que pensam alguns, não sinto que nesses afazeres desperdice o pouco tempo que tenho, que roube à leitura ou à escrita. Há um tempo para apanhar pedras e outro para as atirar, como consta no Eclesiastes, como já se sabe.

Quando ando mergulhado nessas minhas descuidadas lides, gosto de vestir roupas velhas e de calçar sapatos gastos. Posso assim sujar-me, posso conviver com os meus cães, atender ao que é simples e natural sem que me ensombrem outros cuidados que, de ordinário, tornam as pessoas infelizes.

Sérgio Paulo Silva in Palavras de trazer por casa.

………

O Sérgio, eventual colaborador deste blog, por razões de excesso de trabalho e míngua de tempo, talvez nos prende com um ou outro escrito, de quando em vez. Tenhamos fé. Concedeu que por aqui deixemos bocados da sua prosa, de que faz parte o texto acima, integrado no seu mais recente trabalho, Palavras de trazer por casa, uma edição do autor que reúne textos vários, dispersos no tempo, e colaborações que prestou em jornais e outros.

A prosa do Sérgio é assim, clara, brilhante, real, sem os artefactos de literatura pseudo intelectual, fala-nos da realidade das vidas vividas, dos casos mesquinhos da aldeia que não cabem nas memórias das mundanices e por isso, ignorada como o são os grãos de areia que sustentam os grandes edifícios.

Ler o Sérgio, é reviver os tempos de sol e pés descalços chapinhando as águas dos nossos ribeiros, a emoção das jornadas a pé no caminho da festa à Senhora do Socorro, a fruta colhida na beira do caminho, o vinho bebido em festa, o pão suado do esforço da labuta. Não se recomenda…, é obrigatório.

Insondáveis desígnios

Os desígnios de Deus são insondáveis. Por vezes, parece que liberta o anjo da morte ordenando-lhe, tal colector de impostos, que lhe recolha as almas que faltarão, no céu ou no inferno, semeando o terror da morte e a dor da perda a esmo, vá lá saber-se porquê, por de entre famílias que se vêm aniquiladas em pouco tempo.

O pedreiro do Cabeço, perdeu quatro dos seus cinco filhos no espaço de um ano. Grande terá sido o seu pecado, ou a ignominia do criador, para Lhe merecer tal castigo, porque a morte de um filho, é bem mais dolorosa, do que a própria.

Primeiro, faleceu-lhe o Manel, chegado já doente dos Brasis, nunca se recuperou. Definhou, até que a alma se esvaiu, nunca se sabendo de que padecera. Ainda se não recompusera o pai, quando a filha Rosa seguiu os passos a seu irmão, amortalhada por via da infecção duma picadela de caruma, que lhe apodreceu o corpo. O filho Joaquim, finou-se em Outubro, num desastre ocorrido num poço onde trabalhava. Três meses corridos, vai-se-lhe o António, morto de uma navalhada desferida por causa mesquinha.

Vá lá compreender-se porquê, mercê de que fado ou má sorte, um homem vai a enterrar os seus descendentes, contrariando a natureza de que um pai, não deve sobreviver aos seus filhos.

Os autocarros de Canelas

Nos finais da década de 50, a aproximação de Agosto ou Setembro (alternadamente cada ano) trazia sempre uma especial agitação, numa casa tradicionalmente calma e organizada, instalava-se uma desorganização muito particular, era a preparação da mala (mala?… era um verdadeiro baú onde tinham de caber os principais pertences, de dois adultos e duas irrequietas crianças), para além de um incomensurável conjunto de sacos, saquinhos e saquetas, onde a dona da casa colocava tudo o necessário, para 30 dias da família, numa outra habitação sua, mas de férias e a cerca de 250 km da habitação regular, nada podia ficar esquecido.

Após 6 horas de viagem (num comboio muito diferente do Alfa dos nossos dias), chegávamos a Estarreja, onde nos aguardava um táxi que nos conduzia ao nosso destino, já tão perto, mas para mim, ainda tão distante, Canelas, onde a chegada incluía invariavelmente uma volta completa a todas as divisões da casa, procurando ainda hoje não sei o quê de novo, mas que certamente só poderia ser algo, de que a memória se tivesse esquecido, da última vez que ali tenha estado. Na manhã seguinte o despertar era cedo, “cedissimo” pois toda uma panóplia de aventuras me aguardava, era só preciso deslocar-me até aos locais onde as coisas aconteciam… nesse tempo ainda não tinha bicicleta própria ou a que pudesse chamar minha, por algumas horas que fosse, portanto a única solução era recorrer aos transportes públicos… habituado na minha tenra idade de vida na cidade, a ver passar uns carros grandes cheios de gente, rua acima e quase simultaneamente outros tantos rua abaixo, constatei que em Canelas, pequena aldeia da Beira Litoral, e especialmente a determinadas horas do dia, também haviam uns estranhos carros puxados por bois que com invariável cadência, subiam ou desciam a rua do Campo da Cruz; passados os primeiros momentos de vergonha (que diabo, na capital também andava na “pendura” dos eléctricos), lá me acomodava num, perante a complacência do proprietário, que entre frases de comando à “junta”, sempre me ia dizendo para ter cuidado com as rodas, e eu lá seguia sem pagar bilhete, até… sei-lá, umas vezes pela Rua de Baixo passando à Rua da Aldeia, outras pela Rua Direita (que é esquerda, como todos sabem) seguindo pela Rua da Mata direito aos campos, onde invariavelmente me empanturrava de amoras bravias, colhidas na beira do caminho, e fumava escondido um cigarro feito com “barbas de milho”, ou dava uma cachimbada de um “cachimbo” feito de um caniço oco e de um fruto duma arvore, cujo nome o tempo apagou da minha memória, (não, não estou a brincar, lembrem-se que tudo isto se passava numa altura, em que as chaves ainda ficavam nas portas, e as bactérias e os germes, esses marotos ainda não tinham aprendido o caminho para a miríade de doenças juvenis dos dias de hoje, e se porventura a mão que apanhava as amoras, se esticava um pouco mais e apanhava um cacho de uvas com dono, e este do meio da sua faina se tivesse apercebido do roubo, nem nos dava tempo para saboreá-lo, pregava-nos um belo par de tabefes, sem que daí resultasse uma criança irremediavelmente complexada para o futuro, ou com qualquer outro tipo de sequelas, tão em moda nos dias de hoje. O único receio, era mesmo que os nossos Pais viessem a saber, que os seus filhos tinham momentaneamente esquecido todos os Princípios e Valores que eles tanto se tinham esforçado por lhes incutir, até porque isso normalmente implicava um “arraial” dos antigos).

Mais tarde era só mesmo apanhar, mais um ou vários “transportes” de regresso, para não chegar tarde à refeição familiar. E agora digam lá se não haviam autocarros de verdade em Canelas, nos anos cinquenta? Digam o que disserem, para mim, sempre existiram e existirão, pois foram eles que me levaram, vezes e vezes sem conta, rumo aos meus sonhos.

O Joaquim Nunes, com loja ali à barreira, servia, pela festa a Santo António, a tradicional cabra no forno, como por aqui a sabemos cozinhar. Cheirosa, tostada, uma carne macia que se desprende dos ossos, logo que tirada da assadeira ainda a fumegar, libertando misteriosos aromas de cravinho e pimenta, caldeados na maceração do vinho branco do lavrador. Forasteiros e romeiros, abancavam-se nas mesas do Nunes, e comiam com fome antiga, aquela carne rosada, cozinhada durante uma noite inteira, no calor do forno que a lenha aquecera, acompanhada de batatinhas assadas e arroz feito no molho, com uma gula infinita que deixava os pratos limpos e escorridos, de tanto esfregar o pão.

Uns amigos, aqui vizinhos de Salreu, que anualmente vinham à festa, comiam a cabra do Nunes e, no meio da confusão que se gerava pela muita gente, saíam sorrateiramente, sem pagar, e gabavam-se depois, de como tinham ferrado, mais uma vez, o cão ao Nunes.

Nesse ano da graça de 1924, o Nunes, farto da burla e da velhacaria com que o povo lhe atirava; então, ferraram-te o cão outra vez? – jurara vingança. Esmerou-se na assadura que serviria aos de Salreu que, como hábito, vieram, comeram e beberam. Desta vez, pagaram, que o Nunes, sempre alerta, não deixou que os mariolas se aproveitassem novamente da confusão. Prodigializaram os comedores, nos elogios à arte da confecção da refeição, um triste e abandonado cão, que o Nunes abatera, assara, e lhes servira.

Programa das Festas a Nossa Senhora da Saúde nos dias 15, 16 e 17 de Agosto de 1903

Dia 15

14:00 – Chegada ao Campo da Cruz da Charanga de Frossos que percorrerá as ruas da freguesia até ao anoitecer.

À noite, acompanhará nas ruas principais, a tradicional Encamisada.

Dia 16

Anúncio da Alvorada com 21 morteiros, seguida de missa acompanhada pela Filarmónica de Canelas.

08:00 – Chegada ao Campo da Cruz da importante Banda de Santiago de Riba d’UL que percorrerá as ruas da freguesia até às 10:00.

10:30 – Missa Solene, acompanhada pelo grande instrumental de Santiago de Riba d’UL. Ao evangelho, subirá à tribuna sagrada o Rv. Padre José Joaquim Ferreira, mui digno pregador régio. A missa terminará com a bênção do Santíssimo Sacramento.

16:30 – Subirá novamente ao púlpito o Rv. Ferreira, após o que sairá a deslumbrante procissão, com mais de cinquenta anjinhos e várias cruzes de prata das melhores do Distrito que, percorrerá o itinerário habitual.

Terminada a procissão, as músicas tocarão nos seus coretos até às 19:00.

21:00 – Arraial nocturno com as bandas musicais até às 03:00 da madrugada.

Dia 17

Grande despique de fogo preso a cargo de dois conceituados pirotécnicos de Ovar e de Vila da Feira. A igreja será luxuosamente ornamentada de damascos, do que está encarregue, bem como da iluminação, o conceituado artista Terceiro de Albergaria.

Faltam às festas de hoje, a grandiosidade das de outros tempos. Falta a religiosidade dos sermões e a fé do povo. Os foguetes e o fogo preso. Os arraiais até às três da madrugada. Os descantes ao desafio. E o que não vinha no programa, mas que invariavelmente acontecia; os ajustes de contas.

Os céus abriram-se e as águas caíram com a violência de querer lavar os pecados do mundo. Os pequenos córregos engrossaram e transformaram-se em rios que tudo arrastavam na sua louca correria entre montes e vales. Um vento áspero, fustigava os ramos do arvoredo que se agarrava à terra num desesperado prender à vida, quais braços envoltos nos torrões que se transformavam em lama mole, e se esvaíam exauridos nos redemoinhos das correntes. Nunca os vivos haviam visto um temporal assim.

 

Um susto medonho abateu-se sobre as casas. Entre paredes, sufocada no pavor, encolhia-se gente temente, orando a Santa Bárbara;

 

Santa Bárbara Bendita

Que no céu estás escrita

Entre cálices e água benta

Deus nos livre desta tormenta

 

No negrume da noite, águas em fúria engoliram o que encontraram no seu caminho; muros, árvores, criação, alfaias, nada esteve a salvo da voragem. Do dilúvio, saíra o Antuã das suas margens e, galgando as terras, transformara-se num mar imenso. O campo encheu. No breu da noite, lavradores rogavam a salvação dos seus gados, que se criavam nas terras baixas do baixo Vouga lagunar, impedidos pela tempestade de lhes dar auxilio. Uma desgraça assim, que aos pobres só Deus pode ajudar!

Com os primeiros raios da alvorada, aos olhos temerosos de quem receia tudo perder, custava acreditar em tal desolação. Os gados mortos, boiavam nas águas, ao longo da via-férrea, desde o ribeiro de Salreu, até Angeja.

As carnes que se puderam aproveitar, foram vendidas a 140 reis o quilo. A riqueza dos pobres diluira-se nas águas do infortúnio. 

Dia de feira

O dia amanhecia cinzento de feio, enfarruscado das pesadas nuvens que ameaçavam despejar água a rodos. Logo hoje, um dia importante para a vila e para a mercancia, pois que havia milho, trigo e gados a vender.

 

João Lanhoso deitou olhos ao céu tentando-se na imprevisibilidade do tempo. Havia que aparelhar o gado, carregar o carro e fazer-se ao caminho. Era arriscado. Ontem chovera que Deus a dera, e agora mesmo, ia assim o tempo de cara feia. Se fosse apanhado pela chuva sofreria grave prejuízo na molha dos cereais.

 

Mas é certo que quem não arrisca, não petisca. Não haveria S. Pedro de fazer tal desfeita a Santo Amaro. No caminho, o dia foi abrindo e as águas perderam-se para os lados da serra d’Arouca. Sempre era o dia de inauguração da nova feira quinzenal de Santo Amaro, no sítio do mesmo nome, em Estarreja e tudo se vendeu bem, particularmente os cevados, nesse dia de 30 de Setembro de 1901.

O Canto dos Sardões

Pelos anos de 1900, chamavam ao sítio do Espinhal, o Canto dos Sardões. Aí nascera a freguesia de Canelas, um ermo no cimo da encosta que se espreguiça docemente até às águas frescas da foz do Vouga que, no seu espraiar, aqui namoriscam as da Ria de Aveiro.

Dizia-se desconhecer, donde lhe viera tal epíteto mas, entre dentes, acusava-se o prior Rebelo de tal baptizado. O velho cónego, ainda que comparasse a ladeira, à subida ao Monte Sinai, atacava a subida com a mesma fé dos apóstolos, contrariando as velhas pernas a que as dores do reumatismo aconselhavam indulgências, sempre acudindo aos chamados, pelo que, jamais se lembraria de vingança tão mesquinha.

Quem tal nome dera ao lugar, fora o próprio povo, por motivo do pão que o Agostinho Matos e sua mulher Maria Valente, ali coziam e vendiam. Lembraram-se estes de enrolar os restos da massa, na forma de uns pequenos sardões que, cozidos na fornada, davam depois aos garotos dos seus fregueses.

A pequenada, pouco farta por esses tempos, não via o dia da ida ao Espinhal, à loja de Ti Matos. Escondidos pelas saias das mães, aguardavam o ansiado; toma lá o teu sardão!