Da tempestade em Fevereiro de 1900

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Os céus abriram-se e as águas caíram com a violência de querer lavar os pecados do mundo. Os pequenos córregos engrossaram e transformaram-se em rios que tudo arrastavam na sua louca correria entre montes e vales. Um vento áspero, fustigava os ramos do arvoredo que se agarrava à terra num desesperado prender à vida, quais braços envoltos nos torrões que se transformavam em lama mole, e se esvaíam exauridos nos redemoinhos das correntes. Nunca os vivos haviam visto um temporal assim.

 

Um susto medonho abateu-se sobre as casas. Entre paredes, sufocada no pavor, encolhia-se gente temente, orando a Santa Bárbara;

 

Santa Bárbara Bendita

Que no céu estás escrita

Entre cálices e água benta

Deus nos livre desta tormenta

 

No negrume da noite, águas em fúria engoliram o que encontraram no seu caminho; muros, árvores, criação, alfaias, nada esteve a salvo da voragem. Do dilúvio, saíra o Antuã das suas margens e, galgando as terras, transformara-se num mar imenso. O campo encheu. No breu da noite, lavradores rogavam a salvação dos seus gados, que se criavam nas terras baixas do baixo Vouga lagunar, impedidos pela tempestade de lhes dar auxilio. Uma desgraça assim, que aos pobres só Deus pode ajudar!

Com os primeiros raios da alvorada, aos olhos temerosos de quem receia tudo perder, custava acreditar em tal desolação. Os gados mortos, boiavam nas águas, ao longo da via-férrea, desde o ribeiro de Salreu, até Angeja.

As carnes que se puderam aproveitar, foram vendidas a 140 reis o quilo. A riqueza dos pobres diluira-se nas águas do infortúnio. 

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