Da arte de ferrar o cão

Anúncios

O Joaquim Nunes, com loja ali à barreira, servia, pela festa a Santo António, a tradicional cabra no forno, como por aqui a sabemos cozinhar. Cheirosa, tostada, uma carne macia que se desprende dos ossos, logo que tirada da assadeira ainda a fumegar, libertando misteriosos aromas de cravinho e pimenta, caldeados na maceração do vinho branco do lavrador. Forasteiros e romeiros, abancavam-se nas mesas do Nunes, e comiam com fome antiga, aquela carne rosada, cozinhada durante uma noite inteira, no calor do forno que a lenha aquecera, acompanhada de batatinhas assadas e arroz feito no molho, com uma gula infinita que deixava os pratos limpos e escorridos, de tanto esfregar o pão.

Uns amigos, aqui vizinhos de Salreu, que anualmente vinham à festa, comiam a cabra do Nunes e, no meio da confusão que se gerava pela muita gente, saíam sorrateiramente, sem pagar, e gabavam-se depois, de como tinham ferrado, mais uma vez, o cão ao Nunes.

Nesse ano da graça de 1924, o Nunes, farto da burla e da velhacaria com que o povo lhe atirava; então, ferraram-te o cão outra vez? – jurara vingança. Esmerou-se na assadura que serviria aos de Salreu que, como hábito, vieram, comeram e beberam. Desta vez, pagaram, que o Nunes, sempre alerta, não deixou que os mariolas se aproveitassem novamente da confusão. Prodigializaram os comedores, nos elogios à arte da confecção da refeição, um triste e abandonado cão, que o Nunes abatera, assara, e lhes servira.

Anúncios

Anúncios