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Archive for Agosto, 2007

Infâncias d’aldeia

Nado e criado na ruralidade da aldeia, o Júlio foi crescendo entre lavras, alfaias, madrugadas no monte à caruma e ao mato, galinhas, porcos, vacas e tudo o mais que a mãe natureza fez criar. Próprio da infância, apenas algumas brincadeiras, de quando em quando, com a miudagem vizinha. Levantava-se à voz da mãe, por vezes ainda noite, e cumpria as tarefas que lhe estavam destinadas.

Pelos seis anos, estava um homem feito e o pai levou-o à escola. Assim num momento, acabara-lhe com a liberdade das corridas atrás dos garnisés, da subida às árvores, das brincadeiras com o Nero, um rafeiro por quem se tomara de amizades. A escola doía-lhe como as penas aos condenados e, talvez por isso, os primeiros dias foram mais difíceis, pouco habituado a longas quietudes e menos destro com lápis e cadernos. Bem mais à vontade estava com os caminhos para o campo, ou a descoberta dos ninhos que os manhosos melros insistiam em esconder nos silvados mais densos.

Os algarismos e letras, que a senhora professora queria muito redondinhas, desenhadas muito certinhas entre os dois riscos do caderno de linhas, uma tarefa gigantesca que o fazia transpirar do esforço a que o seu pouco jeito para a escrita, obrigava. E a malvada, sem piedade, insistia sempre nas letrinhas redondas, nos algarismos muito bem feitinhos; ele, esforçado para lhe fazer a vontade, inquietava-se na cadeira e contorcia-se na carteira, tentando obrigar aquela mão direita que mais parecia esquerda, a seguir as linhas mas, o lápis fugia-lhe e os traços saíam bicudos, uns acima outros abaixo, levando-o ao desespero.

E lá vinha ela outra vez fiscalizar o trabalho. Inquietou-se e uns pingos de suor rolaram espinha abaixo. Torcido em cima da carteira, ansioso no aperfeiçoamento da caligrafia, o Júlio, fora de si, exclamou alto e bom-som: Caralho, qu’isto é difícil!

Fez-se um breve silêncio na sala, antes de cair o Carmo e a Trindade. A tez da professora avermelhou-se e esta avançou ameaçadoramente para o Júlio. E disse-lhe das boas; que era um malcriado, que tais coisas se não diziam, que nunca tinha ouvido coisa assim, que faria queixa a seu pai, que seria castigado, que lhe não admitia que dissesse asneiras. Um ralhete assim, como nunca, ele tinha levado.

Atónito, olhos esbugalhados, o Júlio não atinava a razão de tanta zanga. Olhos fixos na professora, crescia a vergonha no riso escarninho dos colegas. Mas que fizera, que dissera ele para provocar tal desacato? Por entre o burburinho, tentou explicar-se; encheu o peito de coragem, encarou a mestra e disse-lhe: A senhora professora que me desculpe mas, também não era preciso tanto; foda-se que eu nem sabia que caralho era asneira!

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Às vezes, no correr dos anos, rompe do chão do meu quintal um rebento de videira em sítios onde as cepas foram arrancadas há dezenas de anos e que entretanto foram criando outras coisas. E esses rebentos vêm dizer-me o que a minha memória sabe, que na minha infância em torno de todo o quintal existiam videiras e uma grande latada que cobria toda a área de galinheiros e currais de lenha e porcos.

A escassa vindima não chegava a dar lagarada que se visse. Mas fez-se durante muitos anos. E era assim em todas as casas por aí. Os poços de rega tinham, quase sem excepção, latadas de videiras americanas que protegiam com a sua sombra os animais que sob o calor os volteavam arrancando a água essencial ao medrar dos milhos. As parcelas de terrenos agrícolas que ao longo dos anos se foram encurtando por mor das partilhas entre irmãos, de famílias ainda há bem pouco numerosas, eram, frequentemente, demarcadas por videiras. E esse culto ia por aí, por adentro dessas terras marinhoas até a um palmo do mar: na Torreira ainda se vêm restos de latadas …

Salvo uma por outra cepa, não se cultivavam as uvas de mesa. Fazia-se vinho fraco que não prestava. Nem o de Canelas, que sobressaía, valia o chão que ocupava, nenhum compensava a sombra, os trabalhos da folha, do sulfato, da poda, da vindima, do tanoeiro …

Grão a grão enche a galinha o papo. O ditado é uma luva para desvairadas mãos. Para o que era entre nós o cultivo da vinha também. Bebiam as gentes do que então se produzia não se gastando um tostão (um cêntimo) nos vinhos de marca, de região demarcada, de adegas cooperativas e por aí fora, como hoje gastam, muitas vezes com um despropositado valor de rótulo, já que quaisquer, medianamente sensato, se apercebe do quanto os valores por litro estão injustificadamente inflacionados. Não gastavam e davam um valor acrescentado nas aguardentes que faziam, infelizmente desaproveitadas. Esfolava-se uma perna? Aguardente para cima. Doía um dente? Boxexava-se com aguardente. Perdia-se a mais valia em coisas comesinhas, em mata bichos de quanta tasca e venda se encontrava no cotovelo de quanta rua havia. De ordinário não se envelhecia a aguardente. E, no entanto, as aguardentes que se obtinham destes vinhedos locais (ocasionais) eram de superior qualidade, ao contrário do vinho.

Os velhos hão-de recordar-se do cinema armado que foi a ordem de arranque e destruição das videiras americanas. Foi então insuficiente a polícia. Repicaram os sinos e teve que vir a tropa. E para quê tanto ânimo,

tanta cena triste? O tempo no seu correr se encarregou de desfazer latadas, apodrecer os cascos, encerrar os alambiques.

Dos que existiam na minha freguesia (Salreu) resta apenas um, do Sr. Mário Corte-Real, numa laboração ocasional valendo-se do sacrifício do Sr. Armindo e destilando por teimosias: a teimosia da amizade, a teimosia de uma prestação de serviço a uma agricultura que já não existe e a teimosia do amor pelo que os anos foram entranhando nas nossas mãos …

Fechou há muito o alambique do Ernesto Ildefonso; o do Dr. Pinaz pouco lhe sobreviveu. E tempos houve em que laboravam os três dia e noite. Para se ter uma ideia do que os alimentava, registe-se que o próprio Mário Corte-Real produzia, por ano, cerca de 600 almudes de vinho e agora tem em casa quatro videiras …

Não se mudaram as vontades e tenho a impressão de que se continua a dar de comer a um milhão de portugueses apesar dos uísques e de outras modas similares. Antes creio que se deslocaram algumas geografias e se fazem contas de outra maneira nos tempos que se mudaram.

Da minha geografia sentimental me lembrou a videirinha espontânea já que se deixaram de ouvir os silvos dos alambiques a pedir mais bagaço. Temo agora que o último se volatize, como os aromas da aguardente, da pobre memória das gentes da minha aldeia.

N. de A -Assim aconteceu. Fechou esse último alambique e o velho Mário Corte-Real faleceu já no ano

Sérgio Paulo Silva in Palavras de trazer por casa.

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