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Archive for Novembro, 2007

Veio de mansinho, ali para o Côbo, a dessedentar uns pequenos carapauzinhos de escabeche, a que o louro e o alho fritos, davam um leve toque de calor picante, assim como que a lembrar outros trópicos, fritinhos no ponto em que se comem do rabo à cabeça e de uma só vez mas, foi com a picanha que a bicha começou a tomar forma. Medrou nas vermelhas fatias da carne tostada, finamente cortadas, que deixava escorrer um gostoso pingo de gordura para cima do pão caseiro, de farinhas misturadas por mãos e saberes ancestrais, cozido substantivamente, em forno a lenha. Deu-se-lhe a devida continuação com uns pitos, grelhados no calor do brasido, temperados num molho de azeite, alho, malagueta, louro, vinho branco e verde salsa. Sob a frescura dos amieiros, nados e criados nas bordas das valas que comportam as águas que a Ria, generosamente alaga, a dita foi crescendo. Umas divinais bifanas, cortadas de uma carne rosada, envolvida na gordura consistente que só nos porcos caseiros, criados a batata, couves e cabaça, se pode encontrar, avaramente temperadas com umas pedras de sal e comidas de goluseima, vieram ajudar à criação. A tarde fugia para poente e a bicha ganhara corpo, espalhando a sua mansidão na languidez dos vapores etéreos. Havia ainda que dar destino a um soberbo tacho de louros e bem cheirosos rojões, frigidos horas a fio na sua própria gordura e que apeteciam só de olhar. Por esta altura, a bezerra já andava à solta, galgando valas, terras de poisio ou aninhando-se nas sombras frescas de salgueiros e amieiros. A modos de a prender, botou-se-lhe um caldo verde, mas o certo é que este entornou. Foi a aletria, e o seguido arroz-doce que estragaram tudo. Ainda que bem se tentou ensopar o animal num soberbo e esmerado pão-de-ló que a Lúcia faz com receita antiga, mas era tarde demais. Estava apanhada. O café e a aguardente que mão acautelada levou, para caso de indisposição ou acidente, arrumou o assunto, atirando o caixão à cova.

Voltaram de mansinho, já os galos se agitavam nos poleiros, guiados pela luz do Senhor que a lua esparramava a esmo e os espelhos de água reflectiam de modos a fazer dia. Cuidados redobrados, não fossem os três cair à água, desavindos quanto ao caminho, iam tombando para a direita, ora para a esquerda já que o do meio, se não tinha em pé. Este bem que avisou de que, a não chegarem a um entendimento, iriam os três ao chão. E foram! Pela madrugada, desentenderam-se novamente, agora, quanto ao sítio do buraco da fechadura. O da direita que era mais acima, o da esquerda, mais abaixo e o outro, não sabia. Acudiu a mulher, desperta do santo sono pelo desacato ali mesmo à sua porta.

Percebeu, já o sol ia a pino, que tinha deixado fugir a bezerra.

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O Carvalho

O seu pequeno tamanho, era a sua maior amargura. Meão de corpo, o Tavares ganhava a vida a negociar gado. A pé, calcorreava o mundo por fracos caminhos, conduzindo os gados de feira em feira, de festa em festa. Para os três de Eixo, os nove em Pardilhó, a dez na Fontinha a quinze e trinta no Santo Amaro, a dezassete em S. João de Loure, a dezanove em Albergaria, a vinte e quatro nas Frias, a vinte seis em Angeja. Havia ainda as festas a Nossa Senhora da Alegria, o Santo António em Serém, o São Gonçalo no Sobreiro, Santo Amaro de Sernada enfim, um nunca mais acabar de palmilhar por entre montes e vales, caminhos de Deus que, de tantas vezes repetidos, o gado mais velho já os sabia.

Viandante de destino, escarniava o povo a propósito da sua tacanhez, que o Tavares se gastara a andar.

– Óh andadeiro, qualquer dia consomes-te de vez e desapareces!

Filhos duma cabra, sem respeito nem educação, aferroavam-lhe do cimo da sua altura, o pau onde mais lhe doía, precisamente no seu maior desgosto. A alma turvava-se-lhe e sentia-se minguar ainda mais, como se a terra se abrisse e o engolisse logo ali. Afogava o desconsolo nuns copos mal bebidos, e deitava p’ra cama.

Morava ali à Teixeira. Farto assento de lavradores, ostentava à porta um imponente carvalho que na sua grossa dimensão, também ele, achincalhava a pequenez do seu proprietário.

Noite adentro, raso aos muros, lá ia levando a brezundo ao lar. Mercê dos maus vinhos misturados a granel em armazéns manhosos, a alimária perdia estribeiras e lucidez, zigzagueando erráticamente as estreitas ruas aos repelões, tropeçava nos buracos que o tempo pacientemente cavava nos chãos de saibro propositadamente para o arreliar por via dos repetidos trambolhões  que neles dava. Enfim, como é sabido, apanhá-las é fácil, levá-las a casa é o diabo.

Chegado finalmente à porta, vingava o despeito que o roía. Era ali que se pagava com juros, dos remoques ao seu acanhamento.

Equilibrado ao velho carvalho, enchia os pulmões e gritava para a aldeia que o amofinava:

– O Tavares é pequeno mas tem um grande carvalho à porta!

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