O seu pequeno tamanho, era a sua maior amargura. Meão de corpo, o Tavares ganhava a vida a negociar gado. A pé, calcorreava o mundo por fracos caminhos, conduzindo os gados de feira em feira, de festa em festa. Para os três de Eixo, os nove em Pardilhó, a dez na Fontinha a quinze e trinta no Santo Amaro, a dezassete em S. João de Loure, a dezanove em Albergaria, a vinte e quatro nas Frias, a vinte seis em Angeja. Havia ainda as festas a Nossa Senhora da Alegria, o Santo António em Serém, o São Gonçalo no Sobreiro, Santo Amaro de Sernada enfim, um nunca mais acabar de palmilhar por entre montes e vales, caminhos de Deus que, de tantas vezes repetidos, o gado mais velho já os sabia.
Viandante de destino, escarniava o povo a propósito da sua tacanhez, que o Tavares se gastara a andar.
– Óh andadeiro, qualquer dia consomes-te de vez e desapareces!
Filhos duma cabra, sem respeito nem educação, aferroavam-lhe do cimo da sua altura, o pau onde mais lhe doía, precisamente no seu maior desgosto. A alma turvava-se-lhe e sentia-se minguar ainda mais, como se a terra se abrisse e o engolisse logo ali. Afogava o desconsolo nuns copos mal bebidos, e deitava p’ra cama.
Morava ali à Teixeira. Farto assento de lavradores, ostentava à porta um imponente carvalho que na sua grossa dimensão, também ele, achincalhava a pequenez do seu proprietário.
Noite adentro, raso aos muros, lá ia levando a brezundo ao lar. Mercê dos maus vinhos misturados a granel em armazéns manhosos, a alimária perdia estribeiras e lucidez, zigzagueando erráticamente as estreitas ruas aos repelões, tropeçava nos buracos que o tempo pacientemente cavava nos chãos de saibro propositadamente para o arreliar por via dos repetidos trambolhões que neles dava. Enfim, como é sabido, apanhá-las é fácil, levá-las a casa é o diabo.
Chegado finalmente à porta, vingava o despeito que o roía. Era ali que se pagava com juros, dos remoques ao seu acanhamento.
Equilibrado ao velho carvalho, enchia os pulmões e gritava para a aldeia que o amofinava:
– O Tavares é pequeno mas tem um grande carvalho à porta!
Caro amigo, agradeço a sua visita a Dourointeiro e as favoraveis considerações que lá deixou. Eu continuo a afirmar que este seu trabalho mereçe edição. Eu já publiquei dois livros e muito em breve sairá o terceiro com os primeiros doze contos do blog. O conteúdo dos outros dois já publicados, está imediatamente a seguir a esses. Como vê o propósito é apenas a divulgação das coisas antigas o que julgo deve fazer tambem.
Deixo-lhe o meu abraço, desejos de que continue a escrever e, um bom natal
M. Araújo