Memórias de uma bezerra

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Veio de mansinho, ali para o Côbo, a dessedentar uns pequenos carapauzinhos de escabeche, a que o louro e o alho fritos, davam um leve toque de calor picante, assim como que a lembrar outros trópicos, fritinhos no ponto em que se comem do rabo à cabeça e de uma só vez mas, foi com a picanha que a bicha começou a tomar forma. Medrou nas vermelhas fatias da carne tostada, finamente cortadas, que deixava escorrer um gostoso pingo de gordura para cima do pão caseiro, de farinhas misturadas por mãos e saberes ancestrais, cozido substantivamente, em forno a lenha. Deu-se-lhe a devida continuação com uns pitos, grelhados no calor do brasido, temperados num molho de azeite, alho, malagueta, louro, vinho branco e verde salsa. Sob a frescura dos amieiros, nados e criados nas bordas das valas que comportam as águas que a Ria, generosamente alaga, a dita foi crescendo. Umas divinais bifanas, cortadas de uma carne rosada, envolvida na gordura consistente que só nos porcos caseiros, criados a batata, couves e cabaça, se pode encontrar, avaramente temperadas com umas pedras de sal e comidas de goluseima, vieram ajudar à criação. A tarde fugia para poente e a bicha ganhara corpo, espalhando a sua mansidão na languidez dos vapores etéreos. Havia ainda que dar destino a um soberbo tacho de louros e bem cheirosos rojões, frigidos horas a fio na sua própria gordura e que apeteciam só de olhar. Por esta altura, a bezerra já andava à solta, galgando valas, terras de poisio ou aninhando-se nas sombras frescas de salgueiros e amieiros. A modos de a prender, botou-se-lhe um caldo verde, mas o certo é que este entornou. Foi a aletria, e o seguido arroz-doce que estragaram tudo. Ainda que bem se tentou ensopar o animal num soberbo e esmerado pão-de-ló que a Lúcia faz com receita antiga, mas era tarde demais. Estava apanhada. O café e a aguardente que mão acautelada levou, para caso de indisposição ou acidente, arrumou o assunto, atirando o caixão à cova.

Voltaram de mansinho, já os galos se agitavam nos poleiros, guiados pela luz do Senhor que a lua esparramava a esmo e os espelhos de água reflectiam de modos a fazer dia. Cuidados redobrados, não fossem os três cair à água, desavindos quanto ao caminho, iam tombando para a direita, ora para a esquerda já que o do meio, se não tinha em pé. Este bem que avisou de que, a não chegarem a um entendimento, iriam os três ao chão. E foram! Pela madrugada, desentenderam-se novamente, agora, quanto ao sítio do buraco da fechadura. O da direita que era mais acima, o da esquerda, mais abaixo e o outro, não sabia. Acudiu a mulher, desperta do santo sono pelo desacato ali mesmo à sua porta.

Percebeu, já o sol ia a pino, que tinha deixado fugir a bezerra.

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