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Archive for Janeiro, 2008

Barbeiro d’aldeia

Porta aberta, a freguesia lá ia passando a desfazer as barbas ou aparar cabelos. Antes da missa das dez, era obrigatória a rapagem dos queixos empedernidos da escassa lavagem e do pó entranhado na produção filiforme de uma semana de jornadas de sol-a-sol. A esta hora matinal, a conversa era pouca e o trabalho rápido. Falava-se do tempo, do calendário agrícola, do coice que o João tinha levado da égua e o mandara para o hospital com três costelas partidas, enquanto a navalha ia desfazendo o matagal desenvolvido nas fronhas dos fregueses. Cara limpa, uma mão concha de aguardente provia à desinfecção e perfume das peles e, toca a andar para a santa missinha.

Os da tarde, chegavam com outros vagares. Vinham para grandes conversas. Traziam para fora o banco corrido e sentavam-se costas contra a parede gozando o sol quente e saboreando infindáveis conversas. O Justino, para não ficar sozinho, trazia igualmente o mocho e, na modorra da tarde, o pequeno largo albergava a barbearia a céu aberto.

Entre barbas e cabelos, falava-se de tudo e todos. Ali se punha em dia a conversa, se contavam os casos mais assombrosos, as estórias de lobisomens vividas e juradas – que o céu me caia em cima se não é verdade – as infidelidades mais insuspeitas, vislumbradas na figura negra a escapulir-se pela porta entreaberta, dizia-se mal de vizinhos, do regedor, do governo e da choldra do país. Sem pressas, os fregueses ofereciam a sua vez a qualquer outro mais azafamado e, se ninguém aceitava, era com evidente pesar que se transferiam do banco corrido para o mocho, voltando ao assento primeiro logo que se viam tratados.

Finda a tarde, o Justino fechava a loja. Varria do chão cabelos da dureza das crinas de cavalo, limpava pentes, tesouras e navalhas, dobrava o Jornal de Estarreja e, finalmente, como todos os barbeiros, desfazia a sua própria barba. Ensaboado e de navalha em riste, olhava-se no espelho. Na quietude e silêncio do fim-de-dia tornavam-se audíveis os ecos das misérias que por ali desfilaram nas conversas tidas. Sozinho e sem mais de quem dizer mal, encarando-se olhos nos olhos, o Justino encosta a navalha à pele e diz para o espelho; e tu, Justino Pintor, pareces um anjinho mas também és um bom filho da puta!

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