Porta aberta, a freguesia lá ia passando a desfazer as barbas ou aparar cabelos. Antes da missa das dez, era obrigatória a rapagem dos queixos empedernidos da escassa lavagem e do pó entranhado na produção filiforme de uma semana de jornadas de sol-a-sol. A esta hora matinal, a conversa era pouca e o trabalho rápido. Falava-se do tempo, do calendário agrícola, do coice que o João tinha levado da égua e o mandara para o hospital com três costelas partidas, enquanto a navalha ia desfazendo o matagal desenvolvido nas fronhas dos fregueses. Cara limpa, uma mão concha de aguardente provia à desinfecção e perfume das peles e, toca a andar para a santa missinha.
Os da tarde, chegavam com outros vagares. Vinham para grandes conversas. Traziam para fora o banco corrido e sentavam-se costas contra a parede gozando o sol quente e saboreando infindáveis conversas. O Justino, para não ficar sozinho, trazia igualmente o mocho e, na modorra da tarde, o pequeno largo albergava a barbearia a céu aberto.
Entre barbas e cabelos, falava-se de tudo e todos. Ali se punha em dia a conversa, se contavam os casos mais assombrosos, as estórias de lobisomens vividas e juradas – que o céu me caia em cima se não é verdade – as infidelidades mais insuspeitas, vislumbradas na figura negra a escapulir-se pela porta entreaberta, dizia-se mal de vizinhos, do regedor, do governo e da choldra do país. Sem pressas, os fregueses ofereciam a sua vez a qualquer outro mais azafamado e, se ninguém aceitava, era com evidente pesar que se transferiam do banco corrido para o mocho, voltando ao assento primeiro logo que se viam tratados.
Finda a tarde, o Justino fechava a loja. Varria do chão cabelos da dureza das crinas de cavalo, limpava pentes, tesouras e navalhas, dobrava o Jornal de Estarreja e, finalmente, como todos os barbeiros, desfazia a sua própria barba. Ensaboado e de navalha em riste, olhava-se no espelho. Na quietude e silêncio do fim-de-dia tornavam-se audíveis os ecos das misérias que por ali desfilaram nas conversas tidas. Sozinho e sem mais de quem dizer mal, encarando-se olhos nos olhos, o Justino encosta a navalha à pele e diz para o espelho; e tu, Justino Pintor, pareces um anjinho mas também és um bom filho da puta!
Na aldeia da minha infância, vinha um barbeiro ambulante pelas tardes de sábado e Domingos de manhã.
Chamavam-lhe o Caga Lume. O seu nome de batismo ignoro-o eu, pois na aldeia todos têm uma alcunha.
Era baixote, já entradote na idade. Para uma criança qualquer pessoa mais velha que o pai é muito velho.
Não era do Escoural. Penso que seria ali dos lados da Fervença.
Por ali vinha e andava, de maleta feita de madeira onde guadava as poucas ferramentas do ofício, Ttcado uma corneta para anunciar a sua presença.
Um dia contarei uma estória que se passou comigo, quando pela primeira e única vez, o Caga Lume me fez uma tosquia.
Foi no Inverno.