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Archive for Agosto, 2008

matança

Na cara não homem, na cara não que é um vergonha! Já não gritava, A voz saía-lhe trémula, dorida e rouca das muitas tareias que sofrera desde que saíra de casa de seus pais, enfeitiçada por aquela figura pequena e esguia na qual brilhavam dois olhos verdes que foram a perdição da sua vida. Nada e criada na rudeza de casa de lavradores, nunca nada lhe faltara. Sempre uma saia nova pela festa, uns sapatos pelos anos, jamais seu pai lhe tocara com um dedo, ainda que por vezes bem o tivesse merecido.

O calvário começou logo a seguir ao casamento. O sonho de uma vida de felicidade ao lado do homem que escolhera para companheiro, começou a desmoronar-se com a primeira bofetada desferida entre os efeitos de uns copos a mais. Perdera-lhe o respeito, e a vergonha da sua infelicidade, impediu-a de voltar para casa de seus pais.

Mais de quarenta anos de tareias e maus tratos. Tinha vergonha de se apresentar às suas amigas, a ter de inventar quedas, coices das vacas, batidas em portas e armários, para justificar as nódoas negras que lhe manchavam a carne escanzelada. Fingiam acreditar, sabendo que o desgraçado lhe batia com o que tivesse à mão, sem motivo ou argumento.

Desta vez tinha sido uma tareia violenta, espancada pelas carnes até aos ossos, mal se conseguia manter de pé. Na sua idade, a juntar às dores que a velhice consigo trás, a vergonha de se ter de arrastar nas ruas, fazia-lhe cair negras lágrimas que lhe não amainando as dores, aliviavam a alma de maus presságios. À porta de casa, a Julinha amparada nas duas muletas que a ajudavam a ter-se de pé, conversava com a do Pintor. Das doenças, da vida, do que fazer para o almoço.

Amigas desde meninas. Sem uma palavra, choraram a infelicidade daquela a quem o destino marcara o mais triste fado.

– O desgraçado bateu-te outra vez, mulher? Tens de fazer alguma coisa!

– Que hei-de eu fazer? Tenho medo que me mate. Está sempre a ameaçar-me, que me há-de matar!

– Mata-o tu, primeiro mulher! Mata-o! Mata esse desgraçado que eu ajudo!

Lavada em lágrimas, e levantando ameaçadoramente uma muleta, a Julinha assentou; Isso, mata o desgraçado! Mata-o que eu seguro!

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Fadário

Que lhe havia de acabar com o faidário! A raiva surda que as magras colheitas engordava, ia crescendo nos dias mal comidos e nas duras canseiras que a má terra de lavoura exigia à força dos braços. Terra que lhe levava a vida para dele se alimentar e o Estado sempre a apoquentá-lo com a décima. Vida magra e grande labuta por uns poucos alqueires de milho e vinte almudes de fraco vinho, dos quais todos os anos, havia de repartir com o Estado por via da décima. Mas não perdia pela demora, porque lhe havia de lhe acabar com o faidário! Todos os da aldeia o sabiam, e já faltava pouco.

Quando a linha do norte foi concluída, viajou vezes sem conta entre a aldeia e Lisboa. Ia e vinha, no comboio, sem outro fim ou destino. Vendia as terras para pagar os bilhetes. E foi vendendo. Terras, pinhais, juncais, para ir e vir de comboio, assim gozando o que era seu e não do Estado. Quando vendeu a última parcela, a raiva desvaneceu-se como o fumo da máquina se evaporava no ar. Acabara-se o faidário! Nunca mais pagaria a décima. Viveu os anos restantes da caridade da aldeia.

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