Que lhe havia de acabar com o faidário! A raiva surda que as magras colheitas engordava, ia crescendo nos dias mal comidos e nas duras canseiras que a má terra de lavoura exigia à força dos braços. Terra que lhe levava a vida para dele se alimentar e o Estado sempre a apoquentá-lo com a décima. Vida magra e grande labuta por uns poucos alqueires de milho e vinte almudes de fraco vinho, dos quais todos os anos, havia de repartir com o Estado por via da décima. Mas não perdia pela demora, porque lhe havia de lhe acabar com o faidário! Todos os da aldeia o sabiam, e já faltava pouco.
Quando a linha do norte foi concluída, viajou vezes sem conta entre a aldeia e Lisboa. Ia e vinha, no comboio, sem outro fim ou destino. Vendia as terras para pagar os bilhetes. E foi vendendo. Terras, pinhais, juncais, para ir e vir de comboio, assim gozando o que era seu e não do Estado. Quando vendeu a última parcela, a raiva desvaneceu-se como o fumo da máquina se evaporava no ar. Acabara-se o faidário! Nunca mais pagaria a décima. Viveu os anos restantes da caridade da aldeia.