Na cara não homem, na cara não que é um vergonha! Já não gritava, A voz saía-lhe trémula, dorida e rouca das muitas tareias que sofrera desde que saíra de casa de seus pais, enfeitiçada por aquela figura pequena e esguia na qual brilhavam dois olhos verdes que foram a perdição da sua vida. Nada e criada na rudeza de casa de lavradores, nunca nada lhe faltara. Sempre uma saia nova pela festa, uns sapatos pelos anos, jamais seu pai lhe tocara com um dedo, ainda que por vezes bem o tivesse merecido.
O calvário começou logo a seguir ao casamento. O sonho de uma vida de felicidade ao lado do homem que escolhera para companheiro, começou a desmoronar-se com a primeira bofetada desferida entre os efeitos de uns copos a mais. Perdera-lhe o respeito, e a vergonha da sua infelicidade, impediu-a de voltar para casa de seus pais.
Mais de quarenta anos de tareias e maus tratos. Tinha vergonha de se apresentar às suas amigas, a ter de inventar quedas, coices das vacas, batidas em portas e armários, para justificar as nódoas negras que lhe manchavam a carne escanzelada. Fingiam acreditar, sabendo que o desgraçado lhe batia com o que tivesse à mão, sem motivo ou argumento.
Desta vez tinha sido uma tareia violenta, espancada pelas carnes até aos ossos, mal se conseguia manter de pé. Na sua idade, a juntar às dores que a velhice consigo trás, a vergonha de se ter de arrastar nas ruas, fazia-lhe cair negras lágrimas que lhe não amainando as dores, aliviavam a alma de maus presságios. À porta de casa, a Julinha amparada nas duas muletas que a ajudavam a ter-se de pé, conversava com a do Pintor. Das doenças, da vida, do que fazer para o almoço.
Amigas desde meninas. Sem uma palavra, choraram a infelicidade daquela a quem o destino marcara o mais triste fado.
– O desgraçado bateu-te outra vez, mulher? Tens de fazer alguma coisa!
– Que hei-de eu fazer? Tenho medo que me mate. Está sempre a ameaçar-me, que me há-de matar!
– Mata-o tu, primeiro mulher! Mata-o! Mata esse desgraçado que eu ajudo!
Lavada em lágrimas, e levantando ameaçadoramente uma muleta, a Julinha assentou; Isso, mata o desgraçado! Mata-o que eu seguro!
Do que li gostei,acho até que é um lugar comum, mais normal do que se deveria esperar.
Na verdade 40 anos são muitos anos e aí até um dia .
Esse o sonho nem sempre é realizado ou então a vida amaina com o avançar dos anos , mas aí o tempo passou e olhando para trás fica um fosso que a muito se tenta colmatar, nem sempre com exito.
Enfim é a vida dizem os demais….
Estava a pensar numa grande amiga.
Mulher lutadora , perseverante , amiga do seu amigo excelente mãe que, até quando por força desses maus tratos teve que deixar os seus meninos, o tempo passou e como diz o povo o tempo tudo cura, voltou a acreditar que a felicidade não lhe tinha fugido mas sim desarredado por uns tempos.
Hoje , hoje é “feliz” , a mágoa vai levá-la consigo, mas valeu a pena.
Ele, esse ainda hoje tem um sorriso de cordeiro.
Até sempre
Norah
http://tenebrisanima.wixsite.com/premissaseparadoxos
se pudesse partilhar esse website caso goste do conteúdo agradecia imenso. Ainda é novo e terá mais conteúdo brevemente. Muito obrigada desde já .