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Archive for the ‘Estórias d’aldeia’ Category

matança

Na cara não homem, na cara não que é um vergonha! Já não gritava, A voz saía-lhe trémula, dorida e rouca das muitas tareias que sofrera desde que saíra de casa de seus pais, enfeitiçada por aquela figura pequena e esguia na qual brilhavam dois olhos verdes que foram a perdição da sua vida. Nada e criada na rudeza de casa de lavradores, nunca nada lhe faltara. Sempre uma saia nova pela festa, uns sapatos pelos anos, jamais seu pai lhe tocara com um dedo, ainda que por vezes bem o tivesse merecido.

O calvário começou logo a seguir ao casamento. O sonho de uma vida de felicidade ao lado do homem que escolhera para companheiro, começou a desmoronar-se com a primeira bofetada desferida entre os efeitos de uns copos a mais. Perdera-lhe o respeito, e a vergonha da sua infelicidade, impediu-a de voltar para casa de seus pais.

Mais de quarenta anos de tareias e maus tratos. Tinha vergonha de se apresentar às suas amigas, a ter de inventar quedas, coices das vacas, batidas em portas e armários, para justificar as nódoas negras que lhe manchavam a carne escanzelada. Fingiam acreditar, sabendo que o desgraçado lhe batia com o que tivesse à mão, sem motivo ou argumento.

Desta vez tinha sido uma tareia violenta, espancada pelas carnes até aos ossos, mal se conseguia manter de pé. Na sua idade, a juntar às dores que a velhice consigo trás, a vergonha de se ter de arrastar nas ruas, fazia-lhe cair negras lágrimas que lhe não amainando as dores, aliviavam a alma de maus presságios. À porta de casa, a Julinha amparada nas duas muletas que a ajudavam a ter-se de pé, conversava com a do Pintor. Das doenças, da vida, do que fazer para o almoço.

Amigas desde meninas. Sem uma palavra, choraram a infelicidade daquela a quem o destino marcara o mais triste fado.

– O desgraçado bateu-te outra vez, mulher? Tens de fazer alguma coisa!

– Que hei-de eu fazer? Tenho medo que me mate. Está sempre a ameaçar-me, que me há-de matar!

– Mata-o tu, primeiro mulher! Mata-o! Mata esse desgraçado que eu ajudo!

Lavada em lágrimas, e levantando ameaçadoramente uma muleta, a Julinha assentou; Isso, mata o desgraçado! Mata-o que eu seguro!

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Fadário

Que lhe havia de acabar com o faidário! A raiva surda que as magras colheitas engordava, ia crescendo nos dias mal comidos e nas duras canseiras que a má terra de lavoura exigia à força dos braços. Terra que lhe levava a vida para dele se alimentar e o Estado sempre a apoquentá-lo com a décima. Vida magra e grande labuta por uns poucos alqueires de milho e vinte almudes de fraco vinho, dos quais todos os anos, havia de repartir com o Estado por via da décima. Mas não perdia pela demora, porque lhe havia de lhe acabar com o faidário! Todos os da aldeia o sabiam, e já faltava pouco.

Quando a linha do norte foi concluída, viajou vezes sem conta entre a aldeia e Lisboa. Ia e vinha, no comboio, sem outro fim ou destino. Vendia as terras para pagar os bilhetes. E foi vendendo. Terras, pinhais, juncais, para ir e vir de comboio, assim gozando o que era seu e não do Estado. Quando vendeu a última parcela, a raiva desvaneceu-se como o fumo da máquina se evaporava no ar. Acabara-se o faidário! Nunca mais pagaria a décima. Viveu os anos restantes da caridade da aldeia.

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Barbeiro d’aldeia

Porta aberta, a freguesia lá ia passando a desfazer as barbas ou aparar cabelos. Antes da missa das dez, era obrigatória a rapagem dos queixos empedernidos da escassa lavagem e do pó entranhado na produção filiforme de uma semana de jornadas de sol-a-sol. A esta hora matinal, a conversa era pouca e o trabalho rápido. Falava-se do tempo, do calendário agrícola, do coice que o João tinha levado da égua e o mandara para o hospital com três costelas partidas, enquanto a navalha ia desfazendo o matagal desenvolvido nas fronhas dos fregueses. Cara limpa, uma mão concha de aguardente provia à desinfecção e perfume das peles e, toca a andar para a santa missinha.

Os da tarde, chegavam com outros vagares. Vinham para grandes conversas. Traziam para fora o banco corrido e sentavam-se costas contra a parede gozando o sol quente e saboreando infindáveis conversas. O Justino, para não ficar sozinho, trazia igualmente o mocho e, na modorra da tarde, o pequeno largo albergava a barbearia a céu aberto.

Entre barbas e cabelos, falava-se de tudo e todos. Ali se punha em dia a conversa, se contavam os casos mais assombrosos, as estórias de lobisomens vividas e juradas – que o céu me caia em cima se não é verdade – as infidelidades mais insuspeitas, vislumbradas na figura negra a escapulir-se pela porta entreaberta, dizia-se mal de vizinhos, do regedor, do governo e da choldra do país. Sem pressas, os fregueses ofereciam a sua vez a qualquer outro mais azafamado e, se ninguém aceitava, era com evidente pesar que se transferiam do banco corrido para o mocho, voltando ao assento primeiro logo que se viam tratados.

Finda a tarde, o Justino fechava a loja. Varria do chão cabelos da dureza das crinas de cavalo, limpava pentes, tesouras e navalhas, dobrava o Jornal de Estarreja e, finalmente, como todos os barbeiros, desfazia a sua própria barba. Ensaboado e de navalha em riste, olhava-se no espelho. Na quietude e silêncio do fim-de-dia tornavam-se audíveis os ecos das misérias que por ali desfilaram nas conversas tidas. Sozinho e sem mais de quem dizer mal, encarando-se olhos nos olhos, o Justino encosta a navalha à pele e diz para o espelho; e tu, Justino Pintor, pareces um anjinho mas também és um bom filho da puta!

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Veio de mansinho, ali para o Côbo, a dessedentar uns pequenos carapauzinhos de escabeche, a que o louro e o alho fritos, davam um leve toque de calor picante, assim como que a lembrar outros trópicos, fritinhos no ponto em que se comem do rabo à cabeça e de uma só vez mas, foi com a picanha que a bicha começou a tomar forma. Medrou nas vermelhas fatias da carne tostada, finamente cortadas, que deixava escorrer um gostoso pingo de gordura para cima do pão caseiro, de farinhas misturadas por mãos e saberes ancestrais, cozido substantivamente, em forno a lenha. Deu-se-lhe a devida continuação com uns pitos, grelhados no calor do brasido, temperados num molho de azeite, alho, malagueta, louro, vinho branco e verde salsa. Sob a frescura dos amieiros, nados e criados nas bordas das valas que comportam as águas que a Ria, generosamente alaga, a dita foi crescendo. Umas divinais bifanas, cortadas de uma carne rosada, envolvida na gordura consistente que só nos porcos caseiros, criados a batata, couves e cabaça, se pode encontrar, avaramente temperadas com umas pedras de sal e comidas de goluseima, vieram ajudar à criação. A tarde fugia para poente e a bicha ganhara corpo, espalhando a sua mansidão na languidez dos vapores etéreos. Havia ainda que dar destino a um soberbo tacho de louros e bem cheirosos rojões, frigidos horas a fio na sua própria gordura e que apeteciam só de olhar. Por esta altura, a bezerra já andava à solta, galgando valas, terras de poisio ou aninhando-se nas sombras frescas de salgueiros e amieiros. A modos de a prender, botou-se-lhe um caldo verde, mas o certo é que este entornou. Foi a aletria, e o seguido arroz-doce que estragaram tudo. Ainda que bem se tentou ensopar o animal num soberbo e esmerado pão-de-ló que a Lúcia faz com receita antiga, mas era tarde demais. Estava apanhada. O café e a aguardente que mão acautelada levou, para caso de indisposição ou acidente, arrumou o assunto, atirando o caixão à cova.

Voltaram de mansinho, já os galos se agitavam nos poleiros, guiados pela luz do Senhor que a lua esparramava a esmo e os espelhos de água reflectiam de modos a fazer dia. Cuidados redobrados, não fossem os três cair à água, desavindos quanto ao caminho, iam tombando para a direita, ora para a esquerda já que o do meio, se não tinha em pé. Este bem que avisou de que, a não chegarem a um entendimento, iriam os três ao chão. E foram! Pela madrugada, desentenderam-se novamente, agora, quanto ao sítio do buraco da fechadura. O da direita que era mais acima, o da esquerda, mais abaixo e o outro, não sabia. Acudiu a mulher, desperta do santo sono pelo desacato ali mesmo à sua porta.

Percebeu, já o sol ia a pino, que tinha deixado fugir a bezerra.

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O Carvalho

O seu pequeno tamanho, era a sua maior amargura. Meão de corpo, o Tavares ganhava a vida a negociar gado. A pé, calcorreava o mundo por fracos caminhos, conduzindo os gados de feira em feira, de festa em festa. Para os três de Eixo, os nove em Pardilhó, a dez na Fontinha a quinze e trinta no Santo Amaro, a dezassete em S. João de Loure, a dezanove em Albergaria, a vinte e quatro nas Frias, a vinte seis em Angeja. Havia ainda as festas a Nossa Senhora da Alegria, o Santo António em Serém, o São Gonçalo no Sobreiro, Santo Amaro de Sernada enfim, um nunca mais acabar de palmilhar por entre montes e vales, caminhos de Deus que, de tantas vezes repetidos, o gado mais velho já os sabia.

Viandante de destino, escarniava o povo a propósito da sua tacanhez, que o Tavares se gastara a andar.

– Óh andadeiro, qualquer dia consomes-te de vez e desapareces!

Filhos duma cabra, sem respeito nem educação, aferroavam-lhe do cimo da sua altura, o pau onde mais lhe doía, precisamente no seu maior desgosto. A alma turvava-se-lhe e sentia-se minguar ainda mais, como se a terra se abrisse e o engolisse logo ali. Afogava o desconsolo nuns copos mal bebidos, e deitava p’ra cama.

Morava ali à Teixeira. Farto assento de lavradores, ostentava à porta um imponente carvalho que na sua grossa dimensão, também ele, achincalhava a pequenez do seu proprietário.

Noite adentro, raso aos muros, lá ia levando a brezundo ao lar. Mercê dos maus vinhos misturados a granel em armazéns manhosos, a alimária perdia estribeiras e lucidez, zigzagueando erráticamente as estreitas ruas aos repelões, tropeçava nos buracos que o tempo pacientemente cavava nos chãos de saibro propositadamente para o arreliar por via dos repetidos trambolhões  que neles dava. Enfim, como é sabido, apanhá-las é fácil, levá-las a casa é o diabo.

Chegado finalmente à porta, vingava o despeito que o roía. Era ali que se pagava com juros, dos remoques ao seu acanhamento.

Equilibrado ao velho carvalho, enchia os pulmões e gritava para a aldeia que o amofinava:

– O Tavares é pequeno mas tem um grande carvalho à porta!

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Infâncias d’aldeia

Nado e criado na ruralidade da aldeia, o Júlio foi crescendo entre lavras, alfaias, madrugadas no monte à caruma e ao mato, galinhas, porcos, vacas e tudo o mais que a mãe natureza fez criar. Próprio da infância, apenas algumas brincadeiras, de quando em quando, com a miudagem vizinha. Levantava-se à voz da mãe, por vezes ainda noite, e cumpria as tarefas que lhe estavam destinadas.

Pelos seis anos, estava um homem feito e o pai levou-o à escola. Assim num momento, acabara-lhe com a liberdade das corridas atrás dos garnisés, da subida às árvores, das brincadeiras com o Nero, um rafeiro por quem se tomara de amizades. A escola doía-lhe como as penas aos condenados e, talvez por isso, os primeiros dias foram mais difíceis, pouco habituado a longas quietudes e menos destro com lápis e cadernos. Bem mais à vontade estava com os caminhos para o campo, ou a descoberta dos ninhos que os manhosos melros insistiam em esconder nos silvados mais densos.

Os algarismos e letras, que a senhora professora queria muito redondinhas, desenhadas muito certinhas entre os dois riscos do caderno de linhas, uma tarefa gigantesca que o fazia transpirar do esforço a que o seu pouco jeito para a escrita, obrigava. E a malvada, sem piedade, insistia sempre nas letrinhas redondas, nos algarismos muito bem feitinhos; ele, esforçado para lhe fazer a vontade, inquietava-se na cadeira e contorcia-se na carteira, tentando obrigar aquela mão direita que mais parecia esquerda, a seguir as linhas mas, o lápis fugia-lhe e os traços saíam bicudos, uns acima outros abaixo, levando-o ao desespero.

E lá vinha ela outra vez fiscalizar o trabalho. Inquietou-se e uns pingos de suor rolaram espinha abaixo. Torcido em cima da carteira, ansioso no aperfeiçoamento da caligrafia, o Júlio, fora de si, exclamou alto e bom-som: Caralho, qu’isto é difícil!

Fez-se um breve silêncio na sala, antes de cair o Carmo e a Trindade. A tez da professora avermelhou-se e esta avançou ameaçadoramente para o Júlio. E disse-lhe das boas; que era um malcriado, que tais coisas se não diziam, que nunca tinha ouvido coisa assim, que faria queixa a seu pai, que seria castigado, que lhe não admitia que dissesse asneiras. Um ralhete assim, como nunca, ele tinha levado.

Atónito, olhos esbugalhados, o Júlio não atinava a razão de tanta zanga. Olhos fixos na professora, crescia a vergonha no riso escarninho dos colegas. Mas que fizera, que dissera ele para provocar tal desacato? Por entre o burburinho, tentou explicar-se; encheu o peito de coragem, encarou a mestra e disse-lhe: A senhora professora que me desculpe mas, também não era preciso tanto; foda-se que eu nem sabia que caralho era asneira!

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Os desígnios de Deus são insondáveis. Por vezes, parece que liberta o anjo da morte ordenando-lhe, tal colector de impostos, que lhe recolha as almas que faltarão, no céu ou no inferno, semeando o terror da morte e a dor da perda a esmo, vá lá saber-se porquê, por de entre famílias que se vêm aniquiladas em pouco tempo.

O pedreiro do Cabeço, perdeu quatro dos seus cinco filhos no espaço de um ano. Grande terá sido o seu pecado, ou a ignominia do criador, para Lhe merecer tal castigo, porque a morte de um filho, é bem mais dolorosa, do que a própria.

Primeiro, faleceu-lhe o Manel, chegado já doente dos Brasis, nunca se recuperou. Definhou, até que a alma se esvaiu, nunca se sabendo de que padecera. Ainda se não recompusera o pai, quando a filha Rosa seguiu os passos a seu irmão, amortalhada por via da infecção duma picadela de caruma, que lhe apodreceu o corpo. O filho Joaquim, finou-se em Outubro, num desastre ocorrido num poço onde trabalhava. Três meses corridos, vai-se-lhe o António, morto de uma navalhada desferida por causa mesquinha.

Vá lá compreender-se porquê, mercê de que fado ou má sorte, um homem vai a enterrar os seus descendentes, contrariando a natureza de que um pai, não deve sobreviver aos seus filhos.

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